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Luiz Flávio Godinho (Professor CAHL/UFRB)
Consenso progressista número 1: A não nomeação pelo Governo Bolsonaro/MEC da candidata Georgina Gonçalves, eleita na Consulta e na lista tríplice emanada do Consuni da UFRB é uma contundente violação à autonomia universitária garantida na Constituição Federal de 1988, em seu artigo 207.
Consenso progressista número 2: O Governo Bolsonaro e o MEC feriram a democracia ao não respeitar a tradição de posse ao primeiro da lista (isso já ocorreu 3 vezes em 35 anos, em Instituições Federais Baianas), prática iniciada nos Governos de Lula/Dilma. Ademais, mesmo dentro da legalidade da decisão acerca da nomeação do Prof. Fábio Josué, terceiro nome da lista, a famigerada lei da lista tríplice nunca foi cessada por esses dois governos de cunho progressista.
Consenso progressista número três: Será que o Presidente fez uma escolha baseada no mix comportamental e político-cultural da misoginia, do racismo e do preconceito de gênero contra a Profa. Georgina? Esse discurso bolsonarista dos estigmas cruzados não foi fartamente verificável durante o período eleitoral e no decorrer do mandato presidencial? Pelo menos foi nessa forma interrogativa que vi em todas as notas.
Consenso Progressista número 4: o Reitor empossado carece temporariamente de legitimidade, mas não de legalidade, já que a maioria silenciosa prefere um docente do campo progressista como autoridade máxima da UFRB do que um interventor imposto pelo MEC, não é?
Por fim, a questão da apatia da comunidade interna e da reação tímida da sociedade civil contra a violência política do Governo Bolsonaro contra a UFRB! Não seria simplificação do fenômeno creditar esses comportamentos dos segmentos internos e externos a um mero recesso acadêmico? Não teríamos uma mistura de embriaguez hegemônica, comunidade interna e suas associações historicamente tuteladas e ou adormecidas no tocante às necessárias autodeterminações, soberanias e independências das Administrações Centrais da UFRB no devir histórico? É contribuição de Karl Marx, talvez um alerta, de que o estudo dos fenômenos, situações e experiências sociais precisam de um trato radical, não na acepção do senso comum desse significado, qual seja, de um exame sectário ou parcial do todo social, com suas inerentes contradições e dialéticas entre essência e aparência, muitas vezes intencionalmente negligenciadas na contenda política. Ser radical para o autor alemão é buscar a raiz dos problemas, em suma não simplificar os fenômenos cotejando apenas realidades aparentes, mas comprometidos também em desvelar a essência e o concreto da vida social. Refiro-me ao pouco cuidado analítico que os fatores endógenos da instituição receberam nas notas, manifestos e tentativas de explicação que se desenvolveram em todos os textos tornados públicos sobre a nomeação do terceiro colocado na lista do Consuni para Reitor da UFRB. O futuro nos mostrará que somente o empoderamento político não tutelado dos segmentos internos, a luta contra a controladora lei da lista tríplice, o fim de uma mentalidade institucionalizada e de certos paroquialismos, personalismos e patrimonialismos permitirão a superação de uma cultura política que nos arrasta para viver em um contínuo “moinho de gastar pessoas”, projetos e fortalecimento da região. Em suma, a Democracia deve combinar com emancipação coletiva que seja capaz de alterar as condições para que a UFRB seja emancipatória, pública, gratuita, socialmente referenciada, diversa, laica e comprometida com a subsunção real e não apenas formal com princípios transformadores. A luta é feito em uma dialética entre a memória, o esquecimento e o silêncio.
Publicado originalmente em: https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=2232331033502525&id=100001769518349
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“Acho que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamim Franklin, ‘tempo é dinheiro’. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo. Esse tempo pertence a meus afetos. É para amar a mulher que escolhi, para ser amado por ela. Para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis. Isso é o tempo”
Antonio Candido
Considero o meu dever exortar a Comunidade Acadêmica da UFRB a se unir em torno da liderança do Professor Fábio Josué. Não há dúvidas de que a conjuntura desenha um hercúleo desafio ao nosso professor, mas, ao mesmo tempo, sou testemunha da sua capacidade técnica e política. Tive a oportunidade de conhecer Fábio ainda nos eventos que organizamos em prol da conquista da UFRB, nos primeiros anos desse século. Nessa época, Fábio já era um jovem professor universitário e, residindo em Amargosa, se integrou como poucos àquela campanha que para muitos era apenas um sonho. A descrença era razoável, o nosso Recôncavo, que reivindicava uma universidade desde 1822, já havia perdido as suas oportunidades históricas ao não aproveitar ciclos econômicos (como a cana de açúcar e o petróleo) ou ciclos de criação de instituições como aqueles que transformaram diversas instituições agrarias em universidades. De fato, todas as regiões brasileiras com a importância estratégica do Recôncavo foram dotadas de uma rede de instituições, inclusive no campo educacional muito antes que a nossa. Nem mesmo a presença da primeira instituição de ensino superior em ciências agrárias da América do Sul foi suficiente para o desenho de outra trajetória – ao contrário, a nossa Escola de Agronomia foi um dos poucos casos de instituições de ensino agrário absorvida por outra cuja sede era a capital do Estado.
A UFRB é a maior universidade federal dentre aquelas criadas no ciclo de expansão do REUNI – Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, que durou de 2005 a 2016. Atualmente a UFRB conta cerca de doze mil estudantes de graduação e pós-graduação e 910 docentes, sendo 61% doutores e 30% mestres. O quadro técnico da universidade se completa com 704 técnico-administrativos. Possui hoje 55 cursos de graduação nas diferentes áreas do conhecimento. Adicionalmente, na dimensão da pós-graduação, essa universidade possui 17 cursos de mestrado e doutorado, 11 cursos de especializações e 02 residências. Dentre os programas de pós-graduação stricto sensu, 04 são da área de educação e mais 04 cursos desse campo são pós-graduações lato-sensu.
A UFRB possui IGC 4,0 (Índice Geral de Cursos – Graduação e pós-graduação), na escala de 0 a 5, como indicador do INEP/MEC. Em 2013 a instituição recebeu o 11º Prêmio Destaque do Ano na Iniciação Científica e Tecnológica, categoria Mérito Institucional 2013, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Vale dizer, esta categoria premia a instituição participante do programa de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) com o maior índice de egressos titulados na pós-graduação.
O sacrifício que a nossa geração fez para construir esse legado, hoje entregue à “Geração Fábio Josué” foi fundamental para que o Governo Federal não tivesse coragem de ultrapassar alguns limites legais que destruiriam a nossa autonomia e comprometeriam profundamente o nosso futuro como universidade.
O Reitor Fábio Josué ao representar a solução do impasse às ameaças que pairavam sobre a nossa autonomia assume como um raro consenso de toda comunidade acadêmica e da comunidade baiana.
Não tenho dúvidas de que ele está preparado para os imensos desafios que enfrentará nos próximos anos. E também não tenho dúvidas que, ao final, entregará uma instituição ainda mais sólida.
A Fábio, meu Magnífico Reitor, aconselho manter sempre por perto alguma poesia, ela é fundamental para lembrar que para além de toda a burocracia um Reitor deve ser sempre um farol civilizatório. Como sugestão para esses primeiros dias indico, fortemente o poema Invictus, de William Ernest Henley: “…Não importa quão estreita a passagem, Quantas punições ainda sofrerei, Sou o senhor do meu destino, E o condutor da minha alma.”
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Luiz Nova, Professor do CAHL/UFRB
Está consumada politicamente a não indicação da primeira colocada na consulta à comunidade universitária da UFRB e na lista do CONSUNI, professora Georgina Gonçalves. Está consumada, porque as várias referências, lideranças da condução do processo de escolha para o qual a comunidade foi convidada, pronunciaram o seu encerramento.
Como disse desde o início deste processo, a dificuldade que me tocava, não se atinha ao nome do campo hegemônico. O campo se define por si só. No entanto, como afirmei, entendia que a comunidade estaria desarmada frente a “surpresas” de um governo que não surpreende. Ele é o que sempre anunciou ser, antes mesmo de sê-lo.
Mas passado não é para ficar lamentando, deve nos ensinar. O contexto do presente é uma determinação a ser entendida. Por isto, começo a falar da nomeação do terceiro da lista. E, neste sentido, é importante o que ocorreu e está registrado em vídeo. A professora Georgina Gonçalves visitou o professor Fábio Josué e, dignamente, se colocou à disposição para contribuir com o reitorado a ser conduzido pelo colega.
Sobre isso, emito aqui uma opinião pessoal, como integrante que sou da comunidade universitária da UFRB. Reafirmo, como disse antes, ser uma opinião baseada em uma compreensão política na qual a pessoa não pode ser, em geral, a referência absoluta para sua existência. Nestes casos, o indivíduo complementa, mas não define o contexto onde as coisas acontecem.
Começo então a partir do final do processo de Consulta à Comunidade/indicação do professor Fábio Josué. A pretensão é que a indicação de um membro da lista do CONSUNI, do mesmo campo político, não naturalize a agressão à democracia e autonomia universitária, já tão ameaçada.
A nomeação do professor Fábio Josué não muda o perfil político do reitorado da UFRB, como sabemos. O professor é parte do campo político que dirigiu a UFRB, até então. É um campo progressista, comprometido com a Universidade Pública. Mas não podemos esquecer que o processo de construção de nossa UNIVERSIDADE PÚBLICA não é um fato dado, um processo concluído. O governo atual revela isto sempre.
Assim, o vazio político com que a UFRB encerra esta participação não pode ser naturalizado. O diferencial do processo de escolha de Reitor está na participação democrática da comunidade, ainda que regulada de forma polêmica.
Se fomos chamados a escolher, por que o caminho frente a decisão do governo não teve a participação da comunidade? É mais que urgente que o campo progressista conclua sobre as limitações reais da democracia representativa. São limitações objetivas que transformam o conjunto em simples legitimação da autonomia das lideranças.
Desta forma perdem todos, perde a democracia, facilita o autoritarismo. Desde Hitler, os “bufões da cervejaria” chegam ao poder através do voto, também. A democracia representativa tem que ser entendida como parte da construção democrática, não como coadjuvante de legitimação institucional.
Mas não há que “chorar o leite derramado”. Nisto as referências deste processo estão corretas e o professor Fábio Josué, também, ao aceitar.
Lembremos que isto é realmente necessário dizer. A cultura que buscamos construir, antes da efetiva democracia universitária, prevê que a indicação da lista tríplice, pelos Conselhos Superiores havia de incorporar a garantia da dimensão ético-política da democracia.
O mais votado tinha a garantia de que os outros dois integrantes da lista, se nomeados, renunciariam. Assim, estava garantido que o mais votado fosse a única opção e nomeado.
Isto precisa ficar claro se apontamos para a luta democrática e o decorrente aprimoramento institucional. O próprio professor Fábio Josué precisa estar livre desta demanda, com a autorização da comunidade.
Devemos deixar claro que a pretensão é contribuir para o estabelecimento de um reitorado forte em seus compromissos com a UNIVERSIDADE PÚBLICA e a DEMOCRACIA como uma parte inalienável de sua construção.
Reafirmo aqui o que, individualmente, tem sido dito: O professor Fábio Josué também me representa. No entanto, eu não sou a comunidade.
Esta, em minha opinião, deve referendar a posição e dignidade da professora Georgina Gonçalves e, pelo menos no CAHL, recebê-la em ato político de reafirmação da democracia, inclusive com a presença do professor Fábio Josué.
Nós sabemos que reconhecer a correlação de forças existente é parte importante da luta democrática. Mas também sabemos ou devemos saber que, reconhecer uma correlação de forças desfavorável, não significa perda de identidade e/ou negação de compromissos democráticos de afirmação do espaço público.
UMA UFRB FORTE, UNIDA E DEMOCRÁTICA É UM DESAFIO MAIS QUE PRESENTE, INCONTORNÁVEL
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Escrevo sob a emoção da indicação do nome de Fábio Josué para o cargo de reitor da UFRB. Gostaria muito de estar parabenizando a minha querida amiga Georgina, cuja inegável liderança e maturidade acadêmica farão dela, em qualquer tempo, uma Reitora magnífica.
Nesse momento precisamos falar do Magnífico Reitor Fábio Josué. Intelectual com uma formação sólida, um raro humanista, alinhado com as lutas do seu tempo e com experiência que o coloca a altura do cargo. Devemos apoiar integralmente o seu Reitorado. Foi a melhor indicação que o Presidente Bolsonaro fez nesses sete meses de Governo e, ao que tudo indica, esse será, disparado, o melhor lance do seu mandato.
É evidente que o ideal seria a escolha de Georgina, primeira colocada no Colégio Eleitoral, mas vamos lembrar que só os Presidentes Lula e Dilma escolheram sempre os primeiros da lista. Já estamos acostumados a navegar nesses mares revoltos. E sem alguém como Fábio Josué a nos conduzir!
Ontem eu escrevi nas redes sociais em resposta aos que insistiam em rechaçar qualquer nome da lista tríplice que não fosse a professora Georgina:
“Tá legal, eu aceito o argumento…mas faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar”. Eu sei que posso arder na fogueira mas mesmo defendendo o nome de Georgina e sabedor da sua legitimidade não posso deixar de observar e me encantar com o fato de que o Conselho Universitário da UFRB, sob a liderança do Reitor Sílvio Sóglia e da própria Georgina Gonçalves foi brilhante, raro, estupendo, se mostrou um espaço a altura do momento histórico e construiu uma lista tríplice que deu um xeque-mate no Governo: Georgina, Tatiana e Fábio. O Conselho, com legitimidade, autonomia e legalidade, transformou uma camisa de força em asas de liberdade. Georgina Reitora, sempre!!!, mas Tatiana e Fábio representariam, nas atuais circunstâncias, também a Vitória do Conselho e da comunidade da UFRB! A indicação de um deles – Georgina, Tatiana e Fábio, é inexorável, não por uma concessão do Governo, mas por uma engenharia institucional brilhante que o Consuni engendrou, colocando os amigos da ditadura do tamanho nanico que eles terão na história da nossa UFRB!”
Além de tudo, vamos combinar: Um Reitor da nossa querida Amargosa sempre terá seus encantos.
Um bom exemplo é Pedro Calmon que nasceu em Amargosa, em 23 de dezembro de 1902. Foi escritor, jurista, professor, historiador e político. Membro da Academia Brasileira de Letras e várias outras instituições acadêmicas. Em 1939, tornou-se catedrático da Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil e reitor, de 1949 a 1966. Durante o regime militar proibiu a entrada da polícia militar na Universidade do Brasil, dizendo: “aqui, esses beleguins de tropa militar não entram, porque entrar na Universidade só através de vestibular“. Acho que não contaram essa história ao Presidente Bolsonaro…
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Álvaro Vasconcelos
Antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia
Como acontece muitas vezes em Portugal, a vaga engoliu já meio Mundo quando cá chega, como sucede agora com a defesa da “superioridade da civilização ocidental”.
Em julho de 1996, aqui, no PÚBLICO, publiquei um artigo de crítica à teoria do choque das civilizações. Samuel P. Huntington era um intelectual prestigiado, com vasta obra publicada, incluindo um livro sobre a terceira vaga democrática. Porém, a sua tese fazia do “outro” o novo inimigo do Ocidente.
As verdadeiras motivações das teses de Huntington só se vieram a tornar evidentes mais tarde. Em Who Are We? The Challenges to America’s National Identity (2004), Huntington explora o tema que o tornou numa referência dos supremacistas brancos americanos. De acordo com as previsões censitárias, sublinha ele, em 2050 33% da população dos Estados Unidos seria hispânica, 16% negra e 10% asiática. Para ele o credo liberal em que assenta a democracia americana estava ameaçado pelo facto de brancos e cristãos passarem a ser uma minoria.
As teses de Huntington foram desconstruídas por autores como Amartya Sen em Identidade e Violência – a Ilusão do Destino. O erro básico de Huntington foi o de considerar possível definir o comportamento humano a partir de uma “única categoria de acordo com as fronteiras das civilizações” (ou religiões). Huntington, como todos os defensores do relativismo civilizacional, oculta que nenhuma cultura é pura e que todas são fecundadas por outras culturas. Lembremos a importância de pensadores indianos para a filosofia grega, da arte africana para a pintura europeia e que o Islão é, desde as suas origens, um fertilizador da cultura europeia.
No centro desse debate está hoje a democracia e a sua identificação com a civilização ocidental, em particular, com o protestantismo anglo-saxónico. É o que faz Huntington ao considerar o Islão incompatível com democracia, e o que fazem muitos ao considerarem os africanos condenados às ditaduras. Esquecem-se, todavia, de que foram africanos negros, como Nelson Mandela, que conquistaram a democracia, num país onde dominavam as teorias da supremacia branca.
Foram amplamente expostos, não só os erros analíticos de Huntington, como o perigo mortífero das suas teses. Apesar da pertinência das críticas, a teoria de Huntington banalizou-se em sectores das elites políticas e intelectuais na busca de um novo paradigma, para sustentar as opções estratégicas no Mundo no pós-Guerra Fria. A guerra do Iraque fez parte da “estratégia civilizadora” dos neoconservadores de democratização pela força. Donald Trump chegou ao poder com o discurso huntingtoniano sobre a identidade americana ameaçada pelos “não-brancos”, nomeadamente os latinos.
Para Alain Finkielkraut, hoje membro da Academia Francesa, autor de Identidade Triste, não são os latinos a principal ameaça, mas os muçulmanos, como defendeu o filósofo Renaud Camus, autor de A Grande Substituição e apoiante de Le Pen. Para ambos, a identidade francesa e os valores da República estão ameaçados pela “imigração de povoamento”, porque os imigrantes não-europeus, nomeadamente os muçulmanos, são “inassimiláveis”, não descendem dos “autóctones”, ou seja, dos gauleses que Finkielkraut associa “à paixão pelas igrejas românicas” e à “delicadeza do vocabulário” de Montaigne. Argumento absurdo quando pensamos, designadamente, em Amin Maalouf, Marie NDiaye ou em Leila Slimani, todos grandes escritores franceses, prémios Goncourt, descendentes de emigrantes.
Na língua portuguesa, o exemplo mais significativo de um intelectual de prestígio que se colocou ao serviço de um projeto de superioridade civilizacional talvez seja o do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre. A sua doutrina do luso-tropicalismo serviu para esconder a brutalidade da opressão racial, nas colónias portuguesas, e para criar o mito de que os portugueses não são racistas. Ainda hoje sofremos as suas consequências.
Em Portugal, talvez por não existir uma larga comunidade muçulmana, os alvos do racismo ocidentalista são os negros e os ciganos. Em todos os casos – latinos nos Estados Unidos, muçulmanos em França ou africanos em Portugal –, o que fazem os racistas é negar a muitos nacionais dos seus países, porque percebidos como bárbaros, a possibilidade de serem plenamente cidadãos. Tentam congelar a cultura nacional, impedindo que enriqueça, como no passado, com o contributo de outras culturas.
Os intelectuais da banalização do racismo dão voz a medos, a preconceitos e à ignorância que já existiam na sociedade. Renegam assim o que deve ser a sua função social, a de colocar a sua inteligência e saber ao serviço da verdade e da análise da complexidade das sociedades. Hoje, quando tantos são vítimas da vaga de populismo racista que atravessa a Europa e Trump lança uma campanha racista para ser reeleito, o que se espera dos intelectuais é que sejam generosos e solidários com os que sofrem. Não que os agridam com a violência da sua linguagem.
Entre nós houve quem tenha declarado não ter sido por acaso que os zulus não tenham escrito Romeu e Julieta, tal como Berlusconi referindo-se aos muçulmanos: “Porque é que ‘nós’ temos Mozart e Michelangelo e eles não?”. Vivi em Joanesburgo durante o Apartheid e não poucas vezes ouvi coisas semelhantes para justificar o regímen.
Aos que olham para os “outros” como bárbaros , é bom lembrar o que escreveu Claude Levy Strauss, na sua obra Raça e História: “O bárbaro é, em primeiro lugar, o homem que crê na barbárie”.
Combater a banalização do racismo não é apenas defender os direitos humanos dos negros, dos ciganos ou dos muçulmanos. É combater a destruição da democracia pelos nacionalistas identitários, em suma, é defender a nossa liberdade.
Publicado originalmente em https://www.publico.pt/2019/07/24/mundo/comentario/ocidentalismo-maligno-1880947
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