"Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo"
Caetano Veloso. 

Em 2027, a Imperial Escola Agrícola da Bahia, fundada em 15 de fevereiro de 1877, completa cento e cinquenta anos de existência. Trata-se de uma instituição pioneira, que detém a primazia do ensino superior no interior do Nordeste brasileiro e das ciências agrárias na América do Sul. É esse o arco temporal que sustenta a trajetória histórica que, ao longo de sucessivas transformações, desemboca na atual Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Nesse percurso de um século e meio, a instituição foi atravessada por encontros e desencontros, por permanências e rupturas, consolidando uma tradição universitária singular. Embora juridicamente instituída em 29 de julho de 2005 — data que consagra sua fundação formal —, a UFRB é herdeira de uma história iniciada no século XIX. É nessa herança que deve reconhecer não apenas sua memória, mas uma dimensão constitutiva de sua identidade e de seu projeto institucional.

Sempre que percorro a galeria de retratos dos dirigentes da Imperial Escola Agrícola, sou tomado pela mesma reflexão: na condição de homem negro, jamais poderia figurar entre aquelas imagens. A sucessão de rostos e nomes revela uma instituição concebida e dirigida por uma elite branca, em uma sociedade organizada sobre a escravidão e, depois, sobre as desigualdades produzidas por ela. Ainda hoje, apesar dos avanços conquistados, a presença de homens e mulheres negras nos espaços de comando e decisão permanece uma exceção. Essa constatação confere ainda maior significado às transformações que essa instituição experimentou ao longo de sua história.

O imaginário de um Recôncavo reorganizado sem a presença negra foi retratado pela literatura e permeou a produção intelectual da época. Em  As voltas da Estrada[1], romance ambientado no Recôncavo, o escritor Francisco Xavier Ferreira Marques, baiano da Ilha de Itaparica, retrata o ideal de uma elite escravocrata que imaginava reconstruir a região por meio da substituição da população negra pela imigração europeia. Esta era concebida como o caminho para reorganizar a economia e a sociedade após a abolição da escravidão.

Essa mesma concepção atravessava parte da produção acadêmica da Imperial Escola Agrícola. Em “Pioneirismo e Hegemonia: a construção da agronomia como campo científico na Bahia (1832-1911)”[2], o professor Nilton de Almeida Araújo demonstra a recorrência da associação entre raça, organização do trabalho e desenvolvimento agrícola nas teses defendidas pela instituição. Entre elas, destaca Imigração e Colonização do Brasil, de Jacinto Antonio de Matos, na qual se lê:

"As consequências que daí resultaram para a nossa colonização foram por demais funestas. Depois do dia 13 de Maio de 1888, todos os Estados do Brasil, onde a imigração européia não foi estabelecida, ressentiram-se do depauperamento de suas lavouras, resultado fatal, não só do abandono imediato das propriedades dos novos libertos, como também da criminosa imprevidência dos nossos legisladores, sempre preocupados com o presente, porém abandonando o futuro nas mãos de um absurdo fatalismo."

A crise da agricultura não era atribuída à herança de um sistema econômico estruturado sobre séculos de trabalho escravizado, mas à ausência de trabalhadores europeus, considerados mais aptos ao trabalho livre e ao progresso. A imigração aparecia, assim, como solução econômica, política e racial: reorganizaria a produção, substituiria a mão de obra negra e contribuiria para o projeto de branqueamento da sociedade brasileira, então legitimado pelas teorias científicas predominantes.

Continuando a história, a instituição precursora da UFRB,  já no século XX, sob a liderança do governador Landulpho Alves passou a coordenar o mais orgânico e abrangente sistema de articulação entre o ensino superior e o sistema produtivo já concebido na história da Bahia. A incorporação da Escola Agronômica à Universidade Federal da Bahia alterou profundamente esse modelo institucional. A integração à nova universidade dissolveu uma experiência que havia conferido à escola uma identidade singular e uma estreita articulação com o desenvolvimento do interior baiano. Paradoxalmente, foi no interior da própria Universidade Federal da Bahia que amadureceram as condições políticas, acadêmicas e institucionais que, décadas mais tarde, tornariam possível a criação da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. 

A instituição que nasceu para servir a uma sociedade estruturada sobre o trabalho escravizado transformou-se, cento e cinquenta anos depois, na universidade mais negra do Brasil, com um programa de políticas afirmativas que se tornou referência nacional. Hoje, a UFRB reúne hoje as ciências agrárias, as engenharias, as ciências da saúde, as ciências biológicas, as ciências exatas, as ciências sociais, as artes e as humanidades em torno de um projeto universitário profundamente humanista, comprometido com a produção do conhecimento, a justiça social e o desenvolvimento do Recôncavo e do Brasil.

Poucas trajetórias institucionais expressam de forma tão eloquente a capacidade de uma sociedade reinventar as próprias instituições por meio de um projeto cultural autenticamente humanista. Ao longo de um século e meio, essa tradição foi capaz de ressignificar sua missão, ampliar seu compromisso com a sociedade e transformar profundamente o sentido de sua própria existência. Nossos passos vêm de longe. Por isso, nosso horizonte alcança distâncias ainda maiores.

Tudo isso aconteceu no Recôncavo Ancestral, território que desafia permanentemente a universidade a preservar sua memória, reconhecer suas contradições e compreender que seu futuro somente faz sentido quando permanece em diálogo com essa história. É nesse território que passado e futuro são partes de uma mesma travessia.

Talvez essa seja a maior lição destes cento e cinquenta anos: assim como acontece com as pessoas, nenhuma instituição está condenada por sua origem. Quando uma sociedade é capaz de enfrentar o próprio passado, torna-se igualmente capaz de reinventar o próprio futuro. O Recôncavo faz isso há séculos. A UFRB é uma das expressões mais belas dessa longa travessia histórica. 

Que seus próximos cento e cinquenta anos sejam guiados pela mesma coragem de honrar sua história, enfrentar novos desafios e renovar, continuamente, seu compromisso com o conhecimento, com a diversidade, com a democracia e com a transformação social. Uma tradição universitária não se mede apenas pelo tempo que atravessa, mas pela capacidade de transformar a eternidade que lhe cabe viver.

 


 
[1] MARQUES, XAVIER As voltas da estrada. São Paulo, GRD; Brasília, INL, 1982.
[2] ARAÚJO, Nilton de Almeida. Pioneirismo e hegemonia: a construção da agronomia como campo científico na Bahia (1832-1911). 2010. Tese (Doutorado em História Social) – Curso de Pós-Graduação em História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2010. Disponível em: uff.br. Acesso em: 25 jul. 2026